terça-feira, 3 de novembro de 2009

Construamos uma latrina

James Joyce, comparando a Inglaterra ao Império Romano, em "Ulisses":

Que era sua civilização? Vasta, concedo: mas vil. Cloacae: esgotos. Os judeus nos ermos e nos monticumes diziam: "É aqui que nos achamos. Levantemos um altar a Jeová". O romano, como o inglês que lhe segue as pegadas, levou para cada nova plaga em que pôs o pé (...) só sua obsessão cloacal. Mirava, dentro de sua toga, em redor e dizia: "É aqui que nos achamos. Construamos uma latrina".

O livro foi escrito entre 1914 e 1921, quando a Irlanda, terra natal do autor e cenário do livro citado, passava pelos conturbados anos que levaram os condados da Irlanda a se separarem do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda. Não que Joyce discuta política, mas há, é claro, uma cutucada das boas no Reino Unido.

Mais uma coisa para ficar desatualizada

Criei uma conta no flickr. Agora tenho mais um 'perfil' pra ficar desatualizado. E pros meus inimigos coletarem dados sobre minha vida (ah, que dramático!).

Bom, criei. Tá lá. Já publiquei algumas fotos. Meu irmão gostou. Agora resta arrumar tempo pra brincar com a câmera e poder postar fotos novas. Ah, o endereço: www.flickr.com/photos/lizpronin

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

LinkedIn

Depois de séculos atualizei meu 'profile' no LinkedIn... Aproveitei o feirado de finados para colocar o finado 'profile' em dia.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Vampiros na telinha e na telona


Terminei de ver a segunda temporada de True Blood. Muito boa a série. É sobre vampiros, assunto batidíssimo e que vira e mexe volta à moda. Há alguns anos foi Anne Rice com seu Lestat, agora é Stephanie Meyer com seiláqualonome, o vampiro mocinho dos livros da autora.

Paralelo a isso um monte de séries e filmes trazem bebedores de sangue - usualmente maus e selvagens. Mas True Blood, série produzida pela HBO, me cativou. Talvez porque os mocinhos e bandidos não estejam divididos exatamente entre humanos e vampiros, respectivamente. E talvez porque existam outros seres sobrenaturais na série e isso crie uma dinâmica interessante - apesar de bem fantasiosa. Puro entretenimento.

O fato é que a série tem bastante ação e 'não deixa a peteca cair'. Tem sempre alguma coisa acontecendo e a mocinha - Sookie Stackhouse - não é só uma mocinha. Ela também é bem estranha, embora obviamente boazinha. Ah, a música escolhida para tema da série, "Bad Things", é muito boa. A terceira temporada começa só em junho de 2010. E até lá, suspense sobre o que aconteceu com Bill...

Ainda sobre o tema - vampiros -, o último filme que assisti sobre o assunto eu recomendo: "Deixa ela entrar". Sem o romantismo que sempre envolve os vampiros, o filme trata com crueza uma condição de vida (!?) que de sensual (como sempre são representados os vampiros) não tem nada. E de quebra fala de amizade. Bonito e triste.

But for one, there is no doubt

Só há algumas semanas assisti a esse excelente filme. E só agora deu tempo de escrever algo sobre ele para postar aqui. “Doubt” (Dúvida) foi indicado a 5 prêmios Oscar em 2009 e infelizmente não venceu nenhum.

O filme se passa na década de 60, numa escola católica no Bronx (Nova York, EUA). A irmã Aloysius Beauvier, diretora da escola, interpretada maravilhosamente por Meryl Streep, tem certeza de que o padre Brendan Flynn (Philip Seymour Hoffman) está assediando um dos alunos. Ela não tem provas. Mas não tem a mínima dúvida.

O filme retrata uma época de mudanças que o padre representa com suas idéias novas e sua visão otimista. Já a irmã Aloysius Beauvier representa o conservadorismo e a rigidez religiosa que tanto afastaram fiéis da igreja católica - que hoje tenta recuperar com a tal renovação carismática. Mas isso é outro assunto.

O mais interessante do filme não são as questões moral e religiosa. A mim, o que mais chamou a atenção foi a questão da dúvida em si. Como espectador, é fácil se convencer como Meryl Streep. Mas você tem tanta certeza quanto ela? O espectador também se vê inclinado a defender o padre, que parece querer renovar o ar pesado daquele ambiente escolar tão sombrio.

"Dúvida" aborda um drama que assalta qualquer ser humano em algum momento de sua vida - ainda que o assunto seja completamente diferente do exposto no longa. A história fala de fazer escolhas com base em princípios, julgamentos e intuição. Acontece que a intuição de Aloysius Beauvier é sua certeza.

O filme é baseado numa peça que ficou em cartaz na Broadway por cerca de um ano. Seu autor, John Patrick Shanley, a adaptou para o cinema. Recomendadíssimo.

There is no evidence. There are no witnesses. But for one, there is no doubt.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Eric Bana? Winona Ryder?

Nesse final de semana assisti "Star Trek", dirigido por JJ Abrams - de "Lost", "Alias", "Missão Impossível 3". Não sou nehuma trekker. Sei lá se o filme é fiel ou não ao conceito da série. Não segui a série.

Também não vou fazer uma resenha do filme. Tenho a dizer que é bem feito, uma ficção cientifica com aventura, um pouco de humor, um tanto de drama, um vilão mau como um pica-pau, mocinhos e mocinhas adoráveis... Tudo para ser um blockbuster.

O que me chamou a atenção foi quando, no final do filme, aparecem os nomes dos atores que compõem o cast: Eric Bana. Winona Ryder. "Eric Bana? Winona Ryder? Esse não é o filme que acabo de ver..."
Eu não teria notado que são eles se não visse seus nomes. Mas estou absolvida de críticas, acredito. Afinal, a Winona Ryder aparece em 2,4 cenas e em uma delas está com um capuz na cabeça. Ela faz a mãe do Spock.

Já o Eric Bana está tão maquiado para compor seu personagem, o vilão Nero, que, na boa, poderia ser qualquer um em seu lugar - já que o papel, em si, não exige muito:

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Watchmen: Vi e não gostei


Antes de mais nada: não, não li a história em quadrinhos. Meu irmão, na época em que foi lançado por aqui, emprestou de um amigo e eu comecei a ler o primeiro número. Mas ele devolveu antes que eu terminasse (e não fiz nenhum esforço pra evitar isso, que eu me lembre).

Ainda assim, me ficou a impressão de uma coisa legal então fui assistir "Watchmen" com expectativas. Frustradas. Achei o filme forçado e previsível (e, volto a dizer, eu não conhecia a história). Cheio de clichês. Não é uma questão de esperar realismo (ou realidade) de um filme baseado em quadrinhos. Sei que é outra forma de narrativa. Mas "Sin City", adaptado dos quadrinhos de Frank Miller ficou mil vezes melhor. "Homem-Aranha", "Batman Begins", "300", "O Juiz", "V de Vingança" e "Hellboy", só pra citar alguns, também dão de 10 no "Watchmen".

O fato de a temática ser meio batida (a guerra fria já está pra lá de gelada) também não ajuda. Pra não dizer que detestei, uso o recurso de comparar com algo pior: sou mais "Watchmen" do que "O Justiceiro" e o "Motoqueiro Fantasma" - lamentáveis, ambos.

Por falar nisso O Lobo, da DC Comics, também vai virar filme. Esse, no quadrinho, era absurdamente violento. Politicamente abominável, porque incorreto é pouco. E, claro, sensacional. Vamos ver o que o ex-marido da Madonna, Guy Ritch, vai fazer com o anti-herói. É ele quem vai dirigir a adaptação.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Disco novo do Jet


Se numa primeira audição o novo álbum do Jet parece um tanto sem sal, tente de novo. É que "Shaka Rock" vai pegando o ouvinte aos poucos. Não que seja um álbum difícil, pelo contrário, as canções que ouvimos aqui estão entre as mais comerciais que a banda já fez.

O que acontece é que, como no álbum anterior da banda, ficamos esperando o impacto causado pela estréia dos australianos, com o delicioso "Get Born" de 2003. Ainda que esse impacto não venha, tudo que é peculiar ao Jet está em "Shaka Rock": refrãos pegajosos, 'riffs' gostosos, um rock que passeia pelo pop e eventualmente pelo punk, uma pitada de brit pop, um pé no Oasis - repare no refrão de "Beat on Repeat" - e outro nos Rolling Stones.

A síndrome do segundo álbum pode ter seus efeitos ainda nesse terceiro disco, mas se deixe levar pelas melodias e batidas descompromissadas de "K.I.A (Killed in Action)" ou "Walk" e também pela mensagem fácil e previsível da balada "Goodbye Hollywood" - são belas canções no final das contas.

Até parece que a banda fez o segundo álbum mais calmo para que tivesse espaço para pegar mais pesado nesse terceiro. Ok, isso é uma suposição. Mas "She's a Genius" é quase que uma continuação do ‘hit’ "Are You Gonna Be My Girl", com sua pegada rock n' roll sujinha e safada. "La Di Da", que também cabe nessa descrição, é um dos destaques do álbum. E é isso o que impulsiona o repertório: uma aura meio punk atualizada para os nossos tempos.

"Shaka Rock" foi anunciado como uma volta às raízes da banda - o que é curioso dizer de uma banda com menos de 10 anos de estrada. Mas sem dúvida o quarteto retoma a sonoridade do início, que os fez queridinhos da mídia e dos fãs. Talvez soem um pouco pop demais em alguns momentos - como em "Seventeen", uma faixa fraca no álbum - mas continuam capazes de compor canções interessantes e fazer um ótimo álbum.
Resenha originalmente publicada no Território da Música.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O que você está fazendo? Bom, eu...


É na auspiciosa data 09/09/09 - pra quem acredita nessa bobagerada, claro - que resolvou voltar a postar no meu blog. De tempos em tempos ele fica largado. Mas eu volto. Eu sempre volto.

09/09/09 é tão curioso ou interessante quanto o relógio digital marcar 12:34. Só que acontece com menor freqüência (ainda não aderi à nova ortografia). Bom, mas não escolhi o dia, não. Pensei em escrever ontem, tarde da noite, e só tive tempo agora. Mas não vou, nem estou, escrevendo nada muito relevante. Se você tiver algo mais interessante para fazer, não se dê ao trabalho de continuar.

Sabe aquela pergunta besta do Twitter? "O que você está fazendo?" Então, eu estou trabalhando muito no TDM, estou seguindo duas séries televisivas baixadas da internet - In Treatment (2ª temporada) e Mad Men (3ª temporada) -, lendo "Leonardo Da Vinci" de Kenneth Clark, e ouvindo uma porção de álbuns legais. Recomendo: O novo do Ludov, "Caligrafia"; "Humbug" do Arctic Monkeys; "Octahedron" do Mars Volta; "Farm" do Dinosaur Jr e "Candy Cigarette" do Boy in Static.

Sobre a biografia de Leonardo Da Vinci, valem alguns comentários. E, antes de qualquer coisa, não sou nenhuma entendida de arte ou de Da Vinci. O livro é de 1939 e seu autor, Kenneth Clark, descreve um Leonardo desmistificado. Não é uma biografia romanceada, é mais uma análise da obra do artista, com dados históricos e eventualmente pessoais de Da Vinci.

Algumas passagens sobre uma das obras mais conhecidas do artista, a "Última Ceia", me entristeceram:

"É inconcebível que uma pintura que, segundo todos os relatos, era uma ruína irreparável nos séculos XVI e XVII ainda pudesse ter sobrevivido até nossos dias mais ou menos intacta (...) Não há dúvida de que os detalhes do afresco são inteiramente obra de uma sucessão de restauradores (...) As grosseiras caretas, que são tudo o que o tempo e as restaurações nos deixaram, teriam horrorizado Leonardo."
Pois é. Aquela réplica pobre da "Última Ceia" que você, católico, tem na sua sala de jantar (a minha sogra tem uma!), deixaria Da Vinci horrorizado: "Maledetti restauratori", diria o artista.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Belchior no coletivo

Outro dia me senti num documentário pretensamente 'cabeça'. Não daqueles que ficam 10 minutos mostrando um lençol alvo, mais branco que o branco mais branco, balançando ao vento num cenário agreste. Não. Era um documentário urbano.

Estava eu num ônibus articulado, daqueles que parecem ter uma sanfona no meio. Fui para a parte traseira, que chacoalha feito engate solto, pois era onde havia assentos livres. Me sentei.

No banco de trás, um homem ouvia um aparelho sonoro sem fones de ouvido, compartilhando suas preferências musicais. E cantava junto, ou melhor, antes. Antecipava as frases do cantor: "Não quero lhe falar / Meu grande amor"... e logo vinha Belchior "Não quero lhe falar / Meu grande amor".

Esses ônibus articulados têm um desnível no piso e uma placa avisa os passageiros: "CUIDADO DEGRAU". Desconsideremos eventuais erros de pontuação. Algum engraçadinho havia apagado o "I" e colocado um acento no "U", de modo que se lia: "CÚ DADO DEGRAU".

Ao meu lado, um rapaz estalava os dedos. No lado oposto, no outro banco, estava uma mulher obesa. Seus excessos trepidavam no ritmo do ônibus. Mais à frente, outro rapaz empilhava sobre as pernas pacotes e sacolas. Conforme o ônibus balançava e freava, os pacotes caíam, ora para um lado, ora para o outro. Às vezes para frente e outras por cima dele mesmo. Como um Sísifo, o rapaz voltava a empilhá-los sobre as coxas.

Lá fora, o trânsito começava a se complicar: buzinas, cantadas de pneus, sirenes... muitos barulhos. E o homem lá atrás continuava "Minha dor é perceber...", sempre seguido do Belchior. A música, o "CÚ DADO", buzina, excessos trepidando. Foi aí que pensei: "É isso. Só posso estar participando de algum documentário ou curta patrocinado pela Petrobras!"

Olhei para os lados, procurando uma câmera. Nada. O moço que antes estalava os dedos, agora ria: de mim, do Belchior ou que qualquer outra coisa. Por ironia (ou vai ver estava no roteiro), quando o ônibus passou em frente ao Aeroporto de Congonhas, Belchior, precedido do homem seu fã, cantava: "Foi por medo de avião / Que eu segurei / Pela primeira vez / A tua mão".

Pela janela, entre os feios e sujos prédios, postes e a rede elétrica, o pôr do sol cismava e ser bonito e brilhante. Surreal. Bom, se você ver qualquer dia desses um documentário ou curta com trilha sonora de Belchior e filmado dentro de um ônibus, já sabe: aquela mulher de calça social preta e blusa salmão, olhando ao redor como quem busca algo, sou eu.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Michael Jackson: A morte como espetáculo

O “Rei do Pop” - epíteto que Berry Gordy, fundador da gravadora Motown, já diz ser pouco para Michael Jackson - tem na morte a bizarra continuação do que foi em vida: um espetáculo estranho e comovente no qual tudo ganha proporções homéricas.

Morto no último dia 25 de junho, vítima de uma parada cardíaca, o cantor quebra recordes de vendas de discos, de audiência na TV e na internet - através das quais as cenas de seu funeral, com um caixão dourado e florido, direto do Staples Center em Los Angeles, chegam ao mundo todo. O tráfego na web ficou 9% acima do normal durante a transmissão do funeral do músico.

Funerais e homenagens são uma forma de elaborar o luto - um processo de aceitação e superação da perda de uma pessoa querida - e por isso são comuns em diversas culturas desde a antiguidade. A realização de festas ou eventos com comes e bebes é também usual para o ritual de despedida que é um funeral. Mas no caso de Michael Jackson, o rito de passagem (do próprio) e o luto (de todos os demais) ultrapassa o simples - ainda que triste - sofrimento que produz a finitude da existência.

Para a celebridade que foi Jackson, e para o mundo atual, no qual todos nós vivemos, é preciso que uma imagem do cantor moribundo e entubado seja ampliada até a desfiguração e reproduzida exaustivamente. É preciso um caixão de US$ 25 mil banhado a ouro. É preciso que se distribuam ingressos para assistir ao funeral. É preciso um ginásio lotado. É preciso que milhares de pessoas se aglomerem e um helicóptero (ou mais) filme e transmita a cena para dentro da sua casa. É preciso que uma garota de 11 anos diga para 6 bilhões de pessoas que amava o pai.

Precisamos realmente deste circo, como a atriz Elizabeth Taylor nomeou o evento ao negar o convite para participar? Mas é exatamente assim que o espetáculo da morte de Michael Jackson culmina: como se fosse um circo. Todos os olhos do mundo se voltam para o caixão dourado colocado em uma plataforma especial - e o soberbo ataúde nos lembra que o homenageado não está lá, já não existe mais.

Ao redor desse vazio, da casca dourada que indica a falta, o palco se enche de celebridades, luzes, flashes, música, lágrimas, sorrisos, declarações de amor e discursos comoventes. Só faltou que os cantores se apoiassem no caixão como se ele fosse um piano ou um púlpito.

Hoje já não há mais luto fechado, aquele que exigia vestimenta preta dos pés à cabeça e um comportamento sóbrio e recluso. Hoje, todo luto é aliviado - permite cores mais leves. Mas no caso de Michael Jackson o luto é aberto, refletindo a ânsia do ser humano em transformar tudo num fenômeno de imagens, sons e estatística. O luto por Michael Jackson é aberto ao público, à TV e se espalha pela rede.
Esse texto eu publiquei originalmente no Território da Música.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Ai meu jezuiscristinho!

Recebi no meu e-mail de trabalho uma nota falando sobre uma entrevista que o cantor Alice Cooper deu a uma revista de música cristã falando sobre sua fé. Alice Cooper abraçou o cristianismo na década de 80, mas não fica fazendo propaganda disso. Até aí, tudo ok.

Logo na sequência, uma pessoa, como direi?, apoucada, clica aquela opção 'responder a todos' do e-mail e resolve fazer um comentário criticando o cantor. Entre outras bobagens, ela manda:

"Ele diz que é convertido faz muito tempo, mas só agora declarou na entrevista... quantas vidas foram pro inferno, neste período que ele como celebridade se omitiu ??? Vamos refletir galera....."

Não tenho nada contra cristãos. Mas é difícil suportar tamanha estupidez.

1) "Quantas vidas foram pro inferno"? Nenhuma. No cristianismo só se vai 'pro inferno' depois de morto. Assim, nem nesse período, nem em qualquer outro uma vida 'foi pro inferno'.

2) Se as almas foram 'pro inferno' é porque cometeram pecados e não porque Alice Cooper não saiu do armário pagão. Os candangos que não tivessem cometido pecados se não quisessem ir 'pro inferno'.

3) Essa é a pior de todas. A moça, que se diz cristã, comete a maior das blasfêmias ao insinuar que Alice Cooper poderia ter salvo as pobres almas. Até onde eu sei, em 2 mil anos de história do cristianismo, só Jesus Cristo redimiu pecados alheios.

Obs. 1: Não sou cristã, nem tenho nenhuma religião. Sou agnóstica.

Obs. 2: Se os pecadores realmente vão para o inferno ele vai ficar bem cheio. Mas se fossem os ignorantes pra lá ficaria lotado. Satã e as górgonas teriam dificuldade em organizar a fila na entrada.

Obs. 3: Que tal deixar Alice Cooper fazendo o que sabe? Ele é cantor de rock. Quem quiser orientação espiritual que procure um padre, um pastor ou coisa que o valha. Será que essa cristã vai ao mecânico quando tem dor de dente?

sexta-feira, 19 de junho de 2009

O novo álbum do Móveis Coloniais de Acaju

Se o nome do novo álbum dos brasilienses sugere que falta alguma coisa à banda, deve ser isso: falta você ouvir. A "feijoada búlgara", como acabou definido o som quando do lançamento do primeiro álbum, continua em "C_MPL_TE".

A diferença da estréia com "Idem" para este segundo álbum talvez seja a experiência. A estrada, a temporada fora do Brasil, a gravação anterior e, claro, o olhar e ouvidos precisos do produtor Carlos Eduardo Miranda, só lapidaram o que já era precioso.

As guitarras indie de "Indiferença", "Lista de casamento" e "Falso retrato (u-hu)" - que mesmo assim não dispensam os outros elementos que os músicos exploram - puxam o álbum para o rock, mas é no resultado geral que se apóia o talento do grupo. Um talento que não cabe num rótulo porque não se limita. A música do Móveis se espalha.

Outro ponto alto do álbum são as letras das canções. Além de criativas e inteligentes, trazem um jogo de palavras e sentidos que fazem do som dos fonemas um elemento a mais na música da banda. Tanto no lirismo de "Descomplica" quanto no humor-crítica de "Cheia de manha" ou no tom grave de "Bem natural" isso fica prá lá de evidente.

Bem natural, aliás, é a maneira como grupo mistura naipe de metais ska, guitarras rock, alguma psicodelia, elementos chamados regionais, MPB, arranjos e a voz marcante de André Gonzáles.

Mas não é apenas na sonoridade que o Móveis mistura estilos. A banda também tem seu lado punk no que diz respeito ao manejo carreira. No melhor estilo DIY (Do It Yourself, faça você mesmo), o grupo produz seu próprio festival, cria e vende suas camisetas, acessórios e álbuns e ainda organiza suas turnês.

Com a saída de Leonardo Bursztyn (guitarra) e Renato Rojas (bateria), hoje a banda conta com André Gonzáles (voz), BC (guitarra), Beto Mejía (flauta transversal), Eduardo Borém (gaita cromática e teclados), Esdras Nogueira (sax barítono), Fabio Pedroza (baixo), Fabrício Ofuji (produção), Gabriel Coaracy (bateria), Paulo Rogério (sax tenor) e Xande Bursztyn (trombone).

Imperdível, "C_MPL_TE" é fácil de ouvir porque sua melodia não se perde mesmo com tantos detalhes, arranjos, efeitos e elementos. É uma música ricamente elaborada mas extremamente acessível.
Essa resenha eu escrevi para o Território da Música.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Iggy Pop Jazz: e não é que ficou bom?

Iggy Pop fazendo baladas jazz em francês e com efeitos eletrônicos? Sim, é estranho. Mas imperdível. Com mais de 60 anos, Iggy Pop não pára de surpreender. Quando todos achavam que o veterano estava acomodado ao punk rock que o projetou na cena musical, eis que ele anuncia um álbum com sonoridade jazz.

Estranho num primeiro momento, o anúncio foi fazendo sentido aos poucos. Os fãs foram assimilando a idéia. E quando o álbum chegou - antes disso algumas canções já podiam ser ouvidas na internet - parecia que Iggy Pop já fazia aquilo há muito tempo.

“Préliminaires” ficou assim: o músico parece tão à vontade cantando canções como “I Want To Go To The Beach” e “How Insensitive”, que é fácil imaginá-lo fazendo isso novamente. “How Insensitive”, aliás, é uma versão para “Insensatez”, de Antônio Carlos Jobim, que ficou bem mais lúgubre que a original, acompanhando o clima do álbum.

É claro que há momentos agressivos e com ‘riffs’ sujos. “Nice To Be Dead” é um rock que remete às raízes de Iggy Pop. Outra canção que tem jeitão punk é o ‘single’ “King Of The Dogs”. Mesmo não sendo um rock, tem uma aura totalmente sarcástica e sua letra inclui versos como “I have a piece of meat in between my teeth” - mais punk, impossível.

Mas “Préliminaires” não surgiu do nada. O álbum foi inspirado no livro “A Possibilidade de uma Ilha”, do escritor francês Michel Houellebecq. O estilo provocador e ofensivo do escritor combinou perfeitamente com a loucura agressiva de Iggy Pop. A morte é o tema central do álbum.

O teor melancólico do repertório toma como base a concretude da morte, como revela a letra falada de “A Machine For Loving”, que narra a morte de um cão. Não é aquela beleza gótica da morte, sensível e sensual. É a morte mais crua, direta, que marca um vazio, a finitude. A poesia, se podemos chamar assim as letras de “Préliminaires”, segue essa linha conceitual.

Como se pudesse segurar toda a intensidade das faixas, “Les Feuilles Mortes”, canção francesa com poemas de Jacques Prévert, abre e fecha o álbum com o vozeirão grave do norte-americano cantando a morte que separa os amantes. Iggy Pop conseguiu com “Préliminaires” aquilo que muitos artistas tentam sem muito sucesso: se aventurou por terras desconhecidas sem perder a personalidade.
Essa resenha foi publicada originalmente no Território da Música.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Tão triste!

Terminei de ler "Doutor Jivago". Transcrevo um trecho que é o início do fim de Iúri Andreevitch...

"A desgraça espiritual aguçava a sensibilidade de Iúri Andreevitch. Percebia tudo mais nitidamente. O que estava ao redor adquiria traços singulares raros, até mesmo o ar. Com uma participação nunca vista, respirava a noite invernal, como uma testemunha simpatizante. Parecia que nunca havia escurecido assim até agora, e anoitecera pela primeira vez somente hoje, para confortar o homem que se tornara órfão e solitário."
Boris Pasternak in "Doutor Jivago", pp. 619

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Lendo no frio


Sem pensar escolhi a época certa para ler "Doutor Jivago", clássico do escritor russo Boris Pasternak. Com a semana gelada que tivemos em São Paulo (e em todo o sul do país), criou-se um clima propício para a leitura.

O frio de Iuriatin, os ventos de Varikino, a paisagem coberta de neve da Sibéria onde Iúri é forçado a servir aos vermelhos não é o que vejo da minha janela, é claro.

Aqui não há neve, nem fome. Mas o ar gelado, que a roupa não consegue barrar, os ventos que a janela não impede de entrar pelas frestas me fazem mergulhar no drama dessa Rússia revolucionária.

Ler é sempre um prazer, mesmo com esse frio todo.

Foto: Morning, de Kamakaev

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Nada como uma paulada bem dada

Cheguei à conclusão de que preciso de uma paulada bem dada na minha têmpora esquerda. Uma hemorragia leve é bem vinda. Assim, o lado esquerdo do meu cérebro daria uma folga ao direito. E aí, quem sabe, eu pudesse ser mais criativa e produtiva.

Dizem os especialistas que é o lado esquerdo o responsável pela organização e controle das funções cerebrais. Ou algo assim. E que cabe ao lado direito se apegar aos detalhes que, em demasia, nos impediriam de possuir uma conduta razoavelmente normal.

Mas são os detalhes que o lado direito percebe que fazem toda a diferença. Vai ver que quando eu tenho lampejos de criatividade, algumas (poucas, infelizmente) boas idéias, quando realizo algo de que realmente me orgulho, vai ver é o lado direito do meu cérebro que deu sinal de vida. Ou então uma pane momentânea do outro lado se encarrega de dar espaço aos detalhes. Já sei: são os pequenos curtos-circuitos a bombordo que dão colorido à vida.

Mas são os especialistas, com seus lados esquerdos a todo vapor, que dizem isso. Talvez não seja nada disso. Até porque os especialistas não costumam concordar entre si. Mas se eles estiverem certos não é má idéia tomar uma paulada do lado esquerdo da cabeça...